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Mogarém, migração literária de uma lenda goesa

Regina Célia de Carvalho Pereira da Silva

Abstract


Resumo. A identidade histórico-cultural de um povo é constituída por um conjunto complexo de elementos provenientes de vários âmbitos que retratam, memorizam e edificam uma determinada forma coletiva de viver. Nesse processo de formação da identidade coletiva interferem, sem dúvida, os contos e as lendas, quer como uma simples tentativa de explicação da realidade, quer como resposta ou vontade de transformação do real. Tais contos são tratados como instrumento útil, mesmo se ficcional e imaginário, para criar contextos sócio-culturais nos quais seja possível não só, a abolição de normas e leis consideradas injustas, mas também a formalização de ideais heróicos de vida impossíveis e/ou inconvenientes num determinado momento histórico. No caso goês, muitas das lendas típicas da memória histórica são pouco conhecidas e encontram-se bem guardadas, não incomodam ninguém, nem além, nem aquém mar. A lenda, aqui apresentada, faz parte de um corpus de contos que requer uma releitura e reinterpretação à luz dos estudos pós-coloniais. O estudo da sua migração, territorial e literária, demonstra como, desde bem cedo, a população goesa vivia entre culturas e entre religiões. A peculiaridade identitária inerente a Goa proporcionou a viagem literária da lenda Mogarém que, exatamente porque lenda, não é fruto da criatividade de um único autor, mas de uma coletividade e parte de uma literatura popular. Quer-se, aqui, dar uma leitura temporal evolutiva linear e antropológico-motivacional para a divulgação desta lenda em determinados espaços goeses e europeus. 

Abstract. The historical and cultural identity of a people consists of a complex set of elements, drawn from various spheres, that portray, memorize and construct a certain collective way of living. Tales and legends doubtlessly impinge upon this collective process of identity formation, either as simple attempts to explain reality or as willful responses intending to transform reality. Such folk stories, though fictional and thus imaginary, are a useful tool to evoke counterfactual socio-cultural contexts in which it is possible not only to abolish unfair norms and laws but also to reinforce impossible and/or inconvenient heroic ideals of life in a particular historical moment. In the Goan case, many legends drawing on historical memory are little known and are well hidden, and so do not trouble anyone either at home or abroad. The legend I present here is part of a corpus of tales that requires re-reading and reinterpretation in the light of postcolonial studies. The study of its territorial and literary migration reveals how, right from the beginning, Goa’s people lived between cultures and religions. The territory’s peculiar, deep-rooted identity helped shape the literary journey of the Mogarém legend which, precisely because it is a legend, and so part of the folk tradition, is not the fruit of a single author’s creativity, but rather that of a collectivity. Here I give a linear chronological and anthropological-motivational reading for the diffusion of this legend through certain Goan and European spaces.


Keywords


legend, memory, tale, Tomás Ribeiro, Soares Rebelo

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