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À procura de um tempo perdido: de Camilo Pessanha a Carlos Morais José

Sara Augusto

Abstract


Resumo. Desde a Antiguidade clássica que a alegoria foi apontada como característica distintiva da poesia em relação às outras artes e ocupou um papel central até meados do século XVIII. Foi no século XIX que sofreu o primeiro embate: a sua capacidade de ilustração não se coadunava com a subjetividade romântica, nem com a neutralidade do realismo, nem com o protagonismo do símbolo, acabando por nunca recuperar o antigo prestígio que teve até à época barroca. Neste trabalho, centrado no espaço literário de Macau, pretendo mostrar como, do simbolismo da Clepsidra de Camilo Pessanha, à escrita poética contemporânea de António Mil-Homens (Vida ou morte de uma esperança anunciada) e de Carlos Morais José (Anastasis), a alegoria continuou a ser um recurso a ter em conta. Considero sobretudo a presença da leitura temática, aquela que se interroga sobre o sentido do texto, ou seja, sobre a interpretação. Com efeito, de formas distintas, a obra poética destes autores dá corpo ao tema da vida como viagem, enquanto procura e peregrinação, movimento constante e inquieto. Em Pessanha esse exercício cético de procura da perfeição transforma-se em luta inútil contra a força do destino; mas em Mil-Homens e Morais José, a inquietação fragmenta-se, apesar de igualmente intensa, encontrando na escrita poética a forma maior de redenção.

 

Abstract. The allegory has been identified as a distinctive feature of poetry since Classical Antiquity, having played a key role until the mid-18th century. It was in the 19th century that it suffered its first setback: its ability to illustrate did not conform to the subjectivity of Romanticism, the neutrality of Realism or the prominence of the symbol. The allegory would never recover the prestige it enjoyed up until the Baroque period. The present study seeks to demonstrate that the allegory continued to be a relevant resource in Macao’s literary scene, from Camilo Pessanha’s symbolism to the contemporary poetic writings by António Mil-Homens (Vida ou morte de uma esperança anunciada) and Carlos Morais José (Anastasis). This paper focuses mostly on thematic reading, the kind of reading that examines the meaning of the text and its interpretation. In fact, in different wats, the poetic work of these authors lends substance to the theme of life as a journey, while a quest and a pilgrimage, as a constant and restless movement. In Pessanha this sceptic exercise turns into a useless fight against destiny; however, in Mil-Homens and Morais José, the disquietude, albeit equally intense, is more fragmented and finds the most compelling redemption the writing of poetry.


Keywords


Allegory, Camilo Pessanha, Carlos Morais José, António Duarte Mil-Homens, Macao literature

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